Por estes dias me peguei pensando nas razões pelas quais decidi vir morar aqui, nesta pequena cidade nos confins de Santa Catarina. Pois bem, a primeira delas foi minha amiga ter insistido muito para que eu fosse conhecer novas pessoas e blá, blá, blá...depois de um tempo morando aqui vi que não mudaria muito minha vida conhecer as pessoas – tirando raras exceções como alguns amigos de trabalho que me aturam todos os dias – porque a maior parte delas não queria nos conhecer. Logo eu, que vim do Rio de Janeiro, (onde as pessoas fazem amizade só de ir com a sua lata) estava perdido num mundo qualquer sem um pára-quedas para me salvar. Foi bem difícil no inicio, as pessoa são muito fechadas, não gostam muito de contato e nem de conversar com o vizinho – sem falar da juventude transviada que domina por aqui (e que no fim acabam tornando-se uma copia dos próprios pais – algo triste para pessoas que teriam um futuro brilhante fora daqui).
Bem, o segundo motivo eu descobri depois que estava aqui já há quase dois anos, trabalhando sem folga e com uma remuneração bastante instigante aos meus padrões. Certa vez – quando ainda freqüentava a igreja – orei pra Deus pedindo uma luz diferente das que alguém tivesse pedido. Eu queria mudar minha vida por completo e mudar a vida da minha família, não agüentava mais em viver de migalhas de pessoas que só queria nos derrubar, e não mais conseguia pedir ajuda àqueles que pouco tinha a nos oferecer e que o faziam de coração aberto. (a esses agradeço todos os dias da minha vida)
Então, de certo modo, o Senhor atendeu minhas preces. Deu-nos a chance de recomeçar num lugar desconhecido. Claro que Ele não precisava por um traste no nosso caminho. Poderia ter tomado outra iniciativa, tipo... Não sei... Poderia... Acho que desse modo... Deixa prá lá, acho que não teria outra maneira mesmo.
Por fim, o terceiro motivo: Quando nos decidimos viajar no fim do ano – pra ver toda a família e amigos que não víamos a mais de dois anos – surgiu um medo que jamais senti antes. Era algo diferente. Um temor terrível que posso comparar a um filme de terror mais nojento que você tenha visto até hoje em sua vida. (Pode ser uma comparação bizarra mais é compreensível.)
Tive medo de retornar pros amigos, que tanto falava e tinha cultivado durante tantos anos, e ver que todos haviam mudado e não tivesse mais espaço pras nossas loucuras e diversões que entendíamos bem. Eu sabia que tudo na vida pode mudar, que todos somos capazes de mudar – isso faz parte da maturidade e coisa e tal – mas eu não queria que isso acontecesse, e, no entanto tantos anos só pelo telefone e cartas traria uma diferença quando nos víssemos.
Ao contrario do que passou pela minha mente, o retorno tornou-se minha imagem mais legível de nossa amizade que vem perpetuando. Atravessar aqueles portões e ver toda família ali – como se esperassem um membro importante – foi muito emocionante. Ver a Dida vir saltitando até mim gritando meu nome, o Gu descer as pressas pra me abraçar e receber o carinho de cada um deles naqueles poucos minutos foi o suficiente pra mim, eu tinha certeza que eu os amava – e eu entendi que era da família.
(Em meio à lagrimas ainda tento terminar o que comecei com essa publicação. Só de pensar em tudo que passamos juntos e de todas as recordações que temos sinto um alivio no peito por ter conhecido pessoas maravilhosas e divinas como eles.)
As três razões pelas quais ainda estou aqui vêm dos sonhos que ainda pretendo alcançar e todo o potencial que acredito ter e que não foi explorado como deveria por diversas implicações do destino. Sei que foi e ele que me jogou neste fim de mundo, mas sabendo que tenho meus amigos no Rio pra quando eu voltar, que eu terei estabilidade financeira e minha família em qualquer lugar, posso dizer que sou a pessoa mais sortuda no mundo.